ALGORITMOS COMO INSTITUIÇÕES DA VIOLÊNCIA DE GÊNERO ONLINE
PLATAFORMAS DIGITAIS, OBRIGAÇÕES EMPRESARIAIS DE DIREITOS HUMANOS E RESPONSABILIDADE INTERNACIONAL DO ESTADO
DOI:
https://doi.org/10.21783/rei.v12i2.1031Palavras-chave:
violência de gênero online, algoritmos como instituições, empresas e direitos humanos, tecno-silenciamentos, CEDAW, Convenção de Belém do Pará, teoria da atribuiçãoResumo
Este artigo procura compreender quais as obrigações de devida diligência para empresas e para o Estado brasileiro à luz do direito internacional dos direitos humanos em relação à violência de gênero online nas plataformas de redes sociais. A metodologia empregada é revisão de literatura de governança de plataformas e da teoria institucional dos algoritmos, além de análise do arcabouço normativo internacional, com ênfase nas obrigações derivadas da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW), da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (Convenção de Belém do Pará) e dos Princípios Orientadores sobre Empresas e Direitos Humanos da ONU (Princípios Ruggie). O artigo argumenta que sistemas algorítmicos não são ferramentas neutras, mas dispositivos que potencializam a disseminação e monetização da violência de gênero de forma estrutural, e conclui que o Estado brasileiro pode ser responsabilizado pela omissão regulatória que permite a persistência de tais violações.
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